Quantos podem morrer pelo Coronavírus no Brasil? Cientistas respondem

Quantos podem morrer pelo Coronavírus no Brasil? Cientistas respondem

19 de março de 2020 0 Por Diego C. Melo

O professor doutor de Astrofísica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Astrônomo associado ao Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, José Dias do Nascimento Júnior, montou junto ao professor doutor da New Mexico State University, Wladimir Lyra, um modelo matemático em Python, que prevê desastres para o coronavírus no Brasil, caso não sejam tomadas medidas para conter a epidemia no país.

Pelo mundo, pesquisadores de todas as áreas demonstram esforços para conter e prever casos de Coronavírus para auxiliar nas decisões diante  da pandemia que se alastra pela humanidade.

A ideia do modelo de predição do COVID-19

O estudo realizado pelos pesquisadores surgiu pela pandemia do novo Coronavírus (COVID-19), que está tomando o mundo e já chegou a mais de 4 mil vítimas fatais no planeta.

O professor doutor, José Dias do Nascimento Júnior, explica que após o início do surto começou a pesquisar sobre o assunto e maneiras de contribuir e colaborar para diminuir a pandemia.

Assim que começaram a aparecer as primeiras reações globais, comecei a  me perguntar sobre as hipóteses dos modelos utilizados no estudo da propagação do vírus. Quais equações seriam válidas e sob quais aspectos. O novo surto de mostrava que iria fazer história e eu já sabia de outras pesquisas, das limitações de algumas condições matemáticas utilizadas nos modelos. Foi aí que encontro Wladimir Lyra em conversas da rede social”, conta Nascimento.

O professor doutor, Wladimir Lyra, afirma que a ideia de ambos se complementam e partir disso, as hipóteses evoluíram em um modelo para matematizar os casos de coronavírus já existentes e novos.

A ideia e o motivo da pesquisa são devidos à presente pandemia do coronavírus, para compreender a dinâmica da propagação da infecção. Pela leitura de artigos científicos na área de epidemiologia matemática, me deparei com o modelo SIR, que foi o primeiro a buscar matematizar uma epidemia”, destaca Lyra.

O professor explica que percebeu que as equações eram muito parecidas com as que estuda diariamente e por isso havia meios para resolvê-las e assim agregar conhecimento ao campo de estudo do corona. “Não é nada que já não tenha sido feito no campo de epidemiologia, foi um projeto para eu aprender sobre o assunto”, apresenta Lyra.

O COVID-19 é uma família de vírus que promove infecções respiratórias e foi descoberto no dia 31 de dezembro de 2019, em casos na China. No Brasil, de acordo com as secretarias estaduais de saúde, já são 413 casos confirmados, mais de 30% em relação ao último balanço divulgado pelo Ministério da Saúde na terça-feira (17), que contabilizava 291 pessoas infectadas pelo vírus. Foi registrada uma morte pelo COVID-19 no estado de São Paulo na última terça-feira (17).

Como funciona o modelo

Diante do caos da pandemia, Lyra explica que o estudo dele e de Nascimento,  matematiza a dinâmica da propagação de um infecção e pode auxiliar no combate da mesma.

O trabalho considera que a população do país seja dividida em quatro categorias: suscetível, infectada, curada e mortos. Essas categorias interagem segundo regras pré-estabelecidas:

  • A) Quando infectados e suscetíveis interagem, uma parcela é removida da categoria suscetíveis e colocada na categoria infectada.

  • B) Parte dos infectados se curam em um dado intervalo de tempo. Esses são removidos da categoria infectados e colocados na categoria curados.

  • C) Outra parte dos infectados morrem devido à doença. Esses são removidos da categoria infectados e colocados na categoria mortos.

  • D) Os curados desenvolvem imunidade e portanto não são colocados de volta na categoria suscetível.

A última regra significa que curados e mortos também podem ser acrescentados juntos na mesma categoria, de “removidos” da pandemia. Isso resulta no nome ao modelo, SIR (Suscetíveis-Infectados-Removidos). Essas regras são matematizadas e as equações resolvidas para revelar a evolução da epidemia. Por exemplo, na regra A, a quantidade removida é proporcional ao número de pessoas infectadas e ao número de pessoas suscetíveis.

A base de dados utilizada na pesquisa dos cientistas foi mantida e atualizada pelo Centro de Ciências de SIstemas e Engenharia (CSSE, em inglês) da Universidade de Johns Hopkins. Os dados são divididos em casos de infecção, remissão e fatalidades. A base de dados é atualizada frequentemente e contém detalhes como datas e distribuição geográfica.

A partir desses parâmetros foram calculadas as taxas que entraram no modelo. Os componentes do modelo aplicados à epidemia do coronavírus resultam em um contágio muito rápido. Os dados da Itália mostram que uma pessoa infectada passa o vírus para, em média, entre 3 e 4 pessoas antes de se curar ou morrer pela infecção e com isso o número de casos dobra a cada 4 dias.

Lyra explica que há apenas duas maneiras de finalizar essa epidemia. “A primeira é quando muitas pessoas foram infectadas e desenvolveram imunidade ao se curar. Quando isso acontece não há mais pessoas suscetíveis e, portanto, segundo a regra (A) do modelo, não há novas infecções possíveis. Obviamente esse caso é terrível, foi praticamente toda a população infectada em algum momento durante a epidemia e o número de mortos pode ser assustador”, alerta Lyra.

O professor doutor resume que “a segunda maneira de terminar a epidemia é quando a taxa de infecção é menor que a taxa de remissão e então a epidemia é contida. A quarentena (ou vacina) funciona por diminuir a taxa de infecção. O tratamento funciona para aumentar a taxa de remissão. Sem tratamento ou vacina, temos apenas a quarentena como medida eficaz.”

A base de dados do CSSE consultada pelos cientistas durante a pesquisa apresenta informações de todos os países atingidos pela epidemia. Os principais utilizados no modelo foram: China, Coreia do Sul, Itália, Suécia, Estados Unidos e o Brasil.

A aplicação do modelo que chegou aos 2 milhões de mortes no Brasil

O modelo dos pesquisadores quando aplicado ao estado de epidemia no Brasil resulta que cada pessoa infectada está, em média, infectando 6 pessoas. A partir dessa taxa, o número de casos dobra entre 2 e 3 dias. Lyra anuncia que “se continuar desta maneira, sem fazermos nada, a epidemia terá seu pico daqui a 50 dias, no começo de maio, com 53% da população infectada ao mesmo tempo. Isso são mais de 100 milhões de casos. Os hospitais não têm capacidade de lidar com esse número. E, ao final da epidemia, teríamos 2 milhões de mortos.”

O modelo apresentado pelos pesquisadores gerou dois gráficos que resultam na quantidade de mortos no Brasil nos próximos meses e evidenciam um resultado assustador para a população brasileira.

via tecmundo